Reflexão: O Lugar que não quero estar.


Agora são duas horas da manhã. Estou em mais um plantão em uma unidade de terapia intensiva. Todos os pacientes já revistos e medicados. Ando pela frente de cada box com paciente e divago: primeiro paciente um idoso no segundo dia de cirurgia ortopédica para correção de fratura de fêmur e em boa evolução, amanhã provável alta; terceiro paciente uma jovem com quadro de sepse puerperal, respondendo bem ao tratamento e logo será liberada para conhecer o seu rebento; o quarto paciente é um jovem vítima de acidente automobilístico com trauma cranioencefálico, após sete dias em coma começa a despertar e com bom prognóstico neurológico.


E assim vou andando e vendo os demais pacientes. E por que pulei o segundo paciente? Não pulei ... ele foi o único que desde o início do plantão não saiu de meu pensamento. Esta é a sua história: Um senhor de setenta anos, muito amoroso, grande família com esposa, filhos e netos. Extremamente brincalhão e ativo.


Aproveitando os primeiros meses de uma aposentadoria tardia até apresentar há aproximadamente 12 meses, 3 semanas e dois dias um quadro de acidente vascular cerebral isquêmico extenso que o levou a coma vígil irreversível, ficando acamado e totalmente dependente de terceiros desde então.


Desta primeira internação recebeu alta sem nenhuma interação, com alimentação por dispositivo artificial (gastrostomia), respirando por outro dispositivo artificial (traqueostomia) e assistência ventilatória mecânica continua. Se passaram inúmeras internações devido infecções de repetição neste curto espaço de tempo.


Esta nova internação é devida uma nova sepse de foco urinário. Ao seu lado uma das filhas. O semblante dela além do cansaço, um olhar fixo. iniciei confabulação com ela. Para minha surpresa este senhor havia deixado um testamento vital. Nele ele descrevia o quanto se sentia privilegiado pela vida que levou.


Relatava os lugares onde gostaria de ter ido e não foi. O testamento era muito longo. Para cada ente da família havia uma lembrança de bons momentos vividos. E só no final dizia “onde não queria estar”: e era nessa situação atual!


Então perguntei por quê? De forma muito singela ela respondeu: ele tinha se preparado, mas ela e o restante da família não. Conhecia muito de cuidados paliativos e sua importância, mas precisava de um tempo um pouco maior para se despedir.


Seu desejo foi respeitado. Soube que dois meses depois, em seu lar, o paciente que estava em cuidados paliativos, partiu. Ela e toda a família haviam tido o tempo para se prepararem. Assim, foi feito a vontade deixada no testamento vital.


Por Maria Zulete Dadalto

Advogada, Médica e Perita, especialista em Direito Médico e é vocacionada à defesa de médicos e demais profissionais da saúde, no âmbito dos conselhos de classe (sindicâncias e processos ético-disciplinares) e no âmbito judicial.